Em novembro de 1957, quando cheguei ao local onde tinha inicio a construção de Brasilia, fui literalmente recebida por 5 mil candangos à espera de novos companheiros de luta. Espalhados entre o que então se denominou “Cidade Livre” (conjunto de barracos de madeira sem água, luz nem telefone) e os primeiros acampamentos das empresas construtoras, vinham movidos pela vontade de trabalhar e progredir na vida. Mas acima de tudo, pela garra de construir a nova capital do país sob a liderança de Juscelino Kubitschek a quem carinhosamente apelidaram de “presidente bossa nova”.
Esses pioneiros vinham dos quatro cantos do país, notadamente de Goiás, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará e Piauí. Vieram também alguns estrangeiros atraídos pelo projeto desbravador de JK como nós que chegamos de jipe de Buenos Aires após uma lendária viagem de 48 dias. Ao chegar, encontrei a cabeleireira japonesa Virginia que lavou meus longos cabelos com um balde de água fria tirada do córrego e enorme simpatia. Era muito. As agruras dos primeiros dias foram amenizadas por recompensas que não tem preço: assisti às primeiras chuvas que caíram sobre as terras que abrigariam a futura capital; andei de jipe dentro do que seria o atual Lago Paranoá; conheci o real significado da palavra solidariedade ao embarcar no sonho coletivo de mãos dadas com aqueles que depositaram sua coragem e esperança em cada tijolo da nova capital; participei de serestas a luz de velas no ermo do cerrado quando todos cantavam embalados pelo mesmo sentimento; pisei nas primeiras ruas abertas na futura capital e vi desabrochar os primeiros ypes amarelos na avenida W-3 quando ainda era de terra batida. Presenteei a cidade com minhas duas candanguinhas, Mercedes e Gabriela; e, sobretudo, convivi com personagens inesquecíveis que mudaram para sempre minha maneira de ver o mundo.
Em 1958, com um mapa do Plano Piloto vazio nas mãos, assumi a tarefa de vender os lotes da Novacap que ninguém queria comprar. Nesse ano conheci o fundador de Brasília Presidente Juscelino Kubitschek e fiquei contagiada pelo fantástico carisma e entusiasmo com que ele impulsionava todos aqueles que fizeram parte da epopéia da construção. Enquanto brotavam da terra virgem as monumentais obras de Oscar Niemeyer, os “candangos” vivendo em clima de faroeste escreviam uma pagina da historia que mudou os destinos do Brasil. Eram gigantes e desbravadores cuja saga de heróis anônimos está narrada nas imagens da Exposição “BRASILIA 50 ANOS” que, ao divulgá-la aqui e no exterior, presta-lhes merecida homenagem.
Mercedes Urquiza
Curadora da Exposição Itinerante "BRASILIA 50 ANOS”